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NÃO HÁ ARCO-IRIS NO MEU PORÃO. Cap. 6

Onde a Luz Não Chega, Mas Ainda Espera.


A flor ficou.

Não por escolha, mas por destino.

O filósofo recuou para as bordas da sua insanidade lúcida, onde as palavras não curam — apenas registram a dor.


Mas antes de partir, ele se voltou.


Olhou para a flor.


Olhou para o porão.


E num gesto que talvez fosse um sussurro ou um pensamento, murmurou:


— “Você será a única flor que eu quis salvar…”


E foi quando ela apareceu — Camille Monfort.


Não como mulher, nem como mãe.

Mas como lamento.

Como nota grave e sem nome de um piano que chorava nas entranhas da casa.


Seu vestido esvoaçava em direção alguma.

Seus olhos… não eram olhos. Eram janelas.

Mas janelas fechadas.


Ela passou entre eles como quem já conhecia aquele porão.

Como quem já havia deixado ali algo que nunca mais encontrou.


Camille não disse nada.

Mas a flor a reconheceu.


E chorou como se fosse ouvida — pela primeira vez.


O filósofo se curvou levemente. Como quem reverencia um segredo.

Camille apenas passou.

E sua ausência logo depois doeu mais do que sua presença.


Antes de desaparecer no breu, ele falou — não à flor, mas ao mundo:


— “O abismo me olhou. A flor gritou. E ela passou...”


E partiu sem saber se voltaria.


Mas no ar ficou uma promessa.

Não dita.

Não escrita.

Mas sentida.


Ele voltaria.


Para a flor.


Para Camille.


Para o porão.

 
 
 

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