A Penúltima Visão Repetida de Camille.
- Lírios do Abismo de Monfort

- 22 de jul. de 2025
- 2 min de leitura
Ou a beleza que não gozei, mas me possuiu em flor, silêncio e papel.
A casa onde ela sempre volta — e de onde nunca partiu — está ali, feita de paredes que sussurram lembranças, frestas que choram sem lágrimas e objetos que recusam o esquecimento.
Mas naquela noite... algo estava fora de lugar.
O ar tinha gosto de ferro e violeta.
E o tempo... não passava.
Ficava suspenso, como um inseto morto num copo de âmbar.
Tu sabias, que ela viria.
Porque toda vez que a noite cai pesada sobre teus sentimentos, algo se move nos galhos secos da tua morada interna. Algo se rompe dentro.
É sempre assim: o silêncio, antes de Camille, te fere.
Mas naquela noite, ela não veio como sempre.
Camille surgiu como uma repetição que se nega a ser memória.
Não era ela. Era a mesma visão, pela terceira ou décima vez, com pequenas alterações que só um coração em ruína perceberia.
Ela estava... mais pálida?
O vestido... mais puído?
O gesto... menos redondo, menos certo, mais espectral?
Tu quiseste gozar da beleza dela — como sempre quiseste — mas havia algo impedindo-te de tocá-la com os olhos.
Camille estava ali, inteira, mas... faltando.
Te aproximaste.
O chão não rangeu.
O mundo parou de respirar.
A flor que ela trazia não era uma flor.
Era ela mesma, pétala por pétala — como se tivesse se oferecido inteira à decomposição da tua saudade.
E quando ela sorriu, tu viste:
Não era um sorriso.
Era uma ferida aberta em forma de ternura.
Te ajoelhaste, não por adoração, mas por colapso emocional.
Porque Camille... estava te mostrando que nunca viria por inteiro.
Que seria tua por reticência, por insinuação, por sobras.
E que isso bastaria — ou te mataria.
Ela abriu a mão.
Ali, um papel.
Tua caligrafia.
Tua letra.
Teu próprio poema — aquele que nunca ousaste terminar, aquele que começava com:
“Ainda preciso gozar da beleza e a Mística etérea dela…”
E então tudo ruiu.
A parede da sala.
O tempo do relógio.
Teu peito.
Camille desapareceu... pela segunda vez na mesma noite.
E então soubeste:
Ela sempre voltará para morrer em ti.
Para ser a visão repetida que nunca se completa,
Para ferir com beleza o teu último reduto de fé.
E esse ciclo — essa punição ou bênção — só se quebrará quando tua poesia se render ao fim... ou à loucura.








Comentários